Anne Frank: relembre a trajetória da garota judia durante o Holocausto

Anne Frank (Foto: Reprodução)

 

Um dos maiores receios de um indivíduo que mantém um diário é que o conteúdo dele seja descoberto e venha a público. Assim seria também para a garota alemã judia Anne Frank, que escrevia seus sentimentos e desabafos em um caderno pessoal, enquanto vivia os penosos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) junto à sua família.

No entanto, Frank é uma exceção à regra. Com sorte, seu diário foi encontrado, estudado e transmitido ao longo de gerações, impactando o mundo com os relatos inocentes de uma criança vivenciando um período de guerra. É por isso que esse documento se tornou tanto uma fonte histórica para entender a perseguição aos judeus pela regime nazista alemão, momento conhecido por Holocausto, como também como um antro de perseverança e força humana. 

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Devido aos resultados trágicos do Holocausto, Anne Frank não conseguiu crescer e tornar-se uma escritora ou jornalista, tal qual sonhava. Contudo, seu legado ficará fincado nas raízes da história enquanto houver humanidade – e um pouco dele está escrito nos tópicos abaixo. Conheça mais sobre a trajetória da garota judia: 

Nascimento e infância
Annelies Marie Frank nasceu no dia 12 de junho de 1929 na cidade de Frankfurt, na Alemanha. Mais conhecida como Anne, ela foi a segunda e última filha do casal judaico Otto Frank, administrador de um banco familiar e ex-sargento do exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e Edith Frank-Holländer, filha de um rico empresário. Antes de Anne nascer, a dupla já havia parido a primogênita Margot Frank.

Apesar de religiosa, a família Frank era liberal em diversos aspectos e não seguia todas as tradições e costumes do judaísmo. 

Otto Frank e suas duas filhas, Margot (direita) e Anne (centro) (Foto: Anne Frank Stichting/ Reprodução)

 

O núcleo familiar possuía uma grande biblioteca em casa e boas condições econômicas. Pode-se dizer que eles pertenciam à classe média mais abastada e tinham bons recursos para educar as duas meninas. O pai Otto, por exemplo, aficcionado pela área acadêmica, tinha uma grande biblioteca em casa, de forma que incentivava Margot e Anne a ler desde pequenas. 

Contudo, apesar da boa vida que os Franks levavam, a partir da década de 1930, o país germânico passou por mudanças sociais e financeiras dramáticas, justamente após a derrota na Primeira Guerra Mundial – derrota essa que foi acompanhada de sanções impostas à Alemanha e condições que humilharam o país por meio do Tratado de Versalhes (1919), assinado pelos países vencedores –, além da crise econômica que assolava a nação internamente. Nesse mesmo momento, o banco de Otto vai à falência e a família Frank passa a enfrentar uma certa crise financeira. 

Em termos sociais, a situação era mais complicada para os judeus, já que eles eram culpados pelo fracasso germânico e apontados como a razão pela qual a Alemanha não conseguia se reerguer após a guerra. Quem levantava essa bandeira eram os políticos de direita do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, na sigla em inglês), mais conhecido como Partido Nazista, os quais conseguiram ocupar muitas cadeiras no parlamento federal do país após as eleições de 1932.

Com a ascensão do líder do partido, Adolf Hitler, ao cargo de chanceler (primeiro-ministro) da Alemanha, em janeiro 1933, o que já estava ruim para os judeus ficou ainda pior. 

“Em 30 de janeiro, por acaso nós fomos convidados para jantar na casa de uns conhecidos nossos. Estávamos sentados à mesa e ouvíamos o rádio. Então, foi noticiado que Hitler havia se tornado chanceler. Depois, surgiu a notícia sobre uma marcha de tochas da SA em Berlim e nós escutamos gritos e aplausos. Hitler terminou seu discurso com as seguintes palavras: “Me deem quatro anos!”. O nosso anfitrião, em seguida, disse animado: “Vamos ver o que este homem irá conseguir!”. Fiquei sem palavras e minha esposa, petrificada”, relembrou Otto Frank anos mais tarde sobre o episódio.

Os sinais da política antissemita de Hitler logo são vistos no colégio de Margot e nas outras escolas da Alemanha, tal como diversos professores judeus serem demitidos e crianças judias serem insultadas e intimidadas.

Os alunos de origem judaica passam a ser segregados dos não-judeus e são destinados a ocupar bancos separados dos outros colegas de sala, além de terem um declínio em suas notas. Em vez de receberem pontuações e comentários como “muito bom” ou “bom”, passam a ganhar “suficiente” ou “bom”, respectivamente. Essa era uma forma de mostrar que os judeus eram inferiores e não poderiam parecer inteligentes.

Diante a situação, Otto e Edith decidem tirar Margot da escola e buscar um novo refúgio para a família.

Um recomeço
Em março de 1933, Otto decide migrar para Amsterdã, na Holanda, a fim de implantar uma filial da Opekta, empresa que administrava e vendia produtos para fazer geleias. Nesse mesmo momento, Edith e as meninas ficam na casa da avó materna, na cidade alemã de Aachen, enquanto a família não encontra uma casa para se estabelecer na Holanda.

Nos anos seguintes, Anne viria a escrever em seu diário sobre a migração da família: “Por sermos judeus, o meu pai emigrou para a Holanda em 1933, quando se tornou diretor-geral de Companhia Opekta Holandesa, que fabrica produtos usados na fabricação de compotas.”

Finalmente, no início de 1934, após achar um novo lar, todos os Franks migram para Amsterdã e tudo parece seguro e feliz mais uma vez. As meninas voltam a frequentar a escola, Otto consegue operar seu negócio e Edith toma conta do lar.

Anne frequenta o jardim de infância Montessori, instituição em que cada criança recebe uma atenção individualizada.

Anne Frank (atrás, ao centro, de vestido branco) com sua turma da sexta série da Escola Montessori, em Amsterdã (Foto: Anne Frank Fonds, Bazel / Anne Frank Stichting, Amsterdam)

 

Margot e Anne fazem muitos amigos holandeses e alemães na nova cidade. Muitos de seus vizinhos são judeus que fugiram da Alemanha pela mesma razão que os Franks.

Anne (à esquerda) e Margot (segunda à direita) brincam com crianças judias alemãs (Foto: United States Holocaust Memorial Museum | courtesy of Penny Boyer)

 

Em 1938, Otto abre sua segunda empresa, Pectacon, que comercializava ervas, sais e temperos para a produção de carnes. É trabalhando nesse ramo que ele conhece o também judeu alemão Hermann van Pels, que migrou da Alemanha para a Holanda com sua família fugindo do regime nazista. 

Hermann trabalhava como açougueiro e acaba virando sócio de Otto nas empresas Opekta e Pectaton. 

O inimigo retorna
Mesmo fora da Alemanha, a família Frank acompanha o que está acontecendo em sua terra natal por meio de relatos de amigos que ficaram por lá.

As notícias não são boas: a repressão contra os judeus é ainda maior. O antissemitismo é tanto que passa a ser proibido o casamento entre judeus e não-judeus e que judeus tenham seus próprios negócios.

Em 9 novembro de 1938, uma onda nazi sai pelas ruas destruindo sinagogas e lojas judias e prendendo homens judeus. O episódio ficou conhecido por Noite dos Cristais.

Além das ofensivas nacionais contra os judeus (e também comunistas e outras minorias), a Alemanha nazista empreendeu outras tantas para anexar regiões da Áustria, Praga e Checoslováquia em seu território.

Em setembro de 1939, o exército alemão ataca a Polônia e assim é iniciada a Segunda Guerra Mundial.

Na primeira metade do próximo ano, o próximo passo do regime de Hitler é dominar a Europa Ocidental, e assim acaba invadindo a Bélgica, a França e chega até a Holanda, país que estava abrigando muitos refugiados judeus, tal como os Franks. 

Conforme a Alemanha vai ampliando seus domínios e propagando sua política nazista por onde passa, muitos judeus refugiados em outros países vivem momentos de temor.

Anne viria a escrever o episódio em seu diário no futuro: “Depois de maio de 1940, os bons momentos foram poucos e muito espaçados: primeiro veio a guerra, depois a capitulação, em seguida, a chegada dos alemães, e foi então que começaram os sofrimentos dos judeus“.

Anne Frank com sua professora e duas colegas da sexta série da Escola Montessori, em Amsterdã, em 1940 (Foto: Photo collection Anne Frank Stichting, Amsterdam)

 

Duras medidas
A partir de outubro de 1940, o regime nazista implementa um pacote de medidas antissemitas nos países que havia dominado. Por exemplo, passa a ser proibido que uma empresa seja administrada por um judeu. A nova lei obriga que todas elas sejam registradas e passem por um processo de “arianização”.

Otto Frank, diretor à frente da Opekta e da Pectacon, coloca suas empresas no nome de dois colegas não-judeus, mas continua administrando o negócio por detrás.

Em 1941, Margot e Anne são obrigadas a frequentar um colégio somente para crianças judias e é a primeira vez que elas estudaram em uma mesma instituição.

Anne Frank (à esquerda) e três amigas no verão de 1941 (Foto: Photo collection Anne Frank Stichting, Amsterdam)

 

No ano seguinte, os judeus são indicados a utilizar uma estrela amarela costurada em suas roupas, na qual se lia a palavra “judeu”.

Também em 1942, em 12 de junho, Anne completa 13 anos e ganha um diário de aniversário. Esse caderno torna-se seu documento pessoal e onde ela viria a documentar os próximos anos de sua vida.

Contemporâneo àquele momento específico, Anne decide escrever os decretos antissemitas que haviam limitado a liberdade dos judeus:

“A nossa liberdade foi serveramente restringida através de uma série de decretos antissemitas: os judeus foram obrigados a ter uma estrela amarela na sua roupa; os judeus foram obrigados a entregar as suas bicicletas; os judeus foram proibidos de andar de elétrico; os judeus foram proibidos de andar de carro, mesmo no seu próprio; os judeus foram obrigados a fazer as suas compras entre as 15:00h e as 17:00h; os judeus foram obrigados a ir unicamente a cabeleireiros ou salões de estética que fossem judeus; os judeus foram proibidos de andar na rua entre as 20:00h e as 6:00h da manhã; os judeus foram proibidos de ir ao teatro, cinema e a qualquer outro espetáculo; os judeus foram proibidos de ir a piscinas, campos de ténis, hoquei ou qualquer outro recinto desportivo; os judeus foram proibidos de ir remar; os judeus foram proibidos de participar em qualquer atividade desportiva pública; os judeus foram proibidos de se sentar/estar nos seus jardins ou dos seus amigos depois das 20:00h; os judeus foram proibidos de visitar cristãos nas suas casas; os judeus foram obrigados a frequentar escolas judias, etc.”

Primeira página do diário que Anne Frank ganhou em seu aniversário, em 12 de junho de 1942 (Foto: Photo collection Anne Frank Stichting, Amsterdam)

 

Diante o momento aterrorizador, a família tenta deixar a Holanda e emigrar para a Inglaterra e até para os Estados Unidos, mas tudo falha. O perigo era eminente.

Tudo fica ainda mais assustador em 5 de julho de 1942, quando a filha mais velha, Margot, é convocada pelo governo alemão a trabalhar em um campo de concentração.

No dia seguinte, 6, a família já tinha tudo preparado para iniciar uma nova fase e se proteger do regime nazista: um esconderijo apelidado de Anexo Secreto. Ali, os Franks (e também os van Pels, família de Hermann, sócio de Otto) viveriam até que que fossem descobertos pelos nazistas.

O novo rumo fez com que Anne desabafasse em seu diário: “A minha descontraída alegria, e os despreocupados dias de escola foram-se para sempre.

O refúgio
O Anexo Secreto foi um espaço criado em uma parte desativada do antigo escritório de Otto. O esconderijo ficava na parte detrás do escritório, mais especificamente atrás de uma estante móvel, que servia como porta disfarçada para esconder o refúgio das duas famílias.

A estante móvel, que esconde a porta para o Anexo Secreto (Foto: Anne Frank Stichting)

 

Por detrás da “porta”, havia três andares, os quais eram preenchidos com quartos pequenos, um banheiro e uma sala comunitária. O espaço era dividido entre a família Frank (Otto, Edith, Margot e Anne) e a família van Pels(o sócio de Otto, Hermann, sua esposa, Auguste e seu filho, Peter), além de dentista amigo das duas famílias, Fritz Pfeffer.

Como medida de proteção, nenhum dos oito moradores poderia deixar o Anexo, de forma que quem levava mantimentos, alimentos e roupas aos judeus escondidos eram quatro empregados de confiança de Otto: Miep Gies, Johannes Kleiman, Victor Kugler e Bep Voskuijl.

“Não poder sair me deixa mais chateada do que posso dizer, e me sinto aterrorizada com a possibilidade de nosso esconderijo ser descoberto e sermos mortos a tiros”, escreveu Anne, uma vez já alojada no Anexo Secreto.

Para chegar ali sem levantar suspeitas, os Franks deixaram sua casa pela manhã do dia 6 de julho em um estado de caos para parecer que haviam fugido com pressa, além de um bilhete sugerindo que haviam migrado para a Suíça.

Nenhum dos moradores imaginava que passariam tanto tempo escondidos no Anexo Secreto. Mais precisamente, dois anos e um mês.

Quarto de Anne e do dentista Pfeffer no Anexo Secreto (Foto: Anne Frank Werkstukwijzer)

 

Considerando que nunca podiam sair dali, que o espaço era pequeno para oito moradores, e que qualquer barulho ou movimento poderia despertar a curiosidade da vizinhança, eles deveriam se manter silenciosos, quietos e parados.

Para Anne, isso tudo era particularmente muito difícil. Mesmo que ela tivesse ficado empolgada no início com a ideia de compartilhar o espaço com a família van Pels e dividir seu quarto com o dentista Pfeffer, ela logo começou a ficar incomodada em não poder rever seu amigos da escola e sair.

A minha mente treme com as profanidades que esta casa teve de suportar no último mês. […] Para dizer a verdade, por vezes esqueço-me com é que estamos aborrecidos e com quem não estamos. A única forma de tirar esta situação da cabeça é estudar, e ultimamente tenho estudado muito”, escreveu a garota.

O que lhe garante conforto é a possibilidade de escrever seus pensamentos e sentimentos em seu diário. Ele é uma ajuda para driblar toda aquela situação, tal como relata no trecho: “A melhor parte é poder escrever todos os meus pensamentos e sentimentos, caso contrário estaria totalmente sufocada.”

O período no Anexo Secreto também marca o primeiro amor de Anne. Foi ali que a garota começou a se relacionar com Peter van Pels, filho do sócio de seu pai. E é com Peter que Anne dá seu primeiro beijo:

Peter van Pels (Foto: Photo collection Anne Frank Stichting, Amsterdam)

 

“Você acha que papai e mamãe aprovariam uma garota da minha idade sentada num divã e beijando um rapaz de dezessete anos e meio? Duvido que aprovassem, mas tenho de confiar em meu próprio julgamento nessa questão. É tão pacífico e seguro ficar em seus braços e sonhar, é tão emocionante sentir seu rosto encostado no meu, é tão maravilhoso saber que há alguém esperando por mim!”

Uma esperança
Os oito refugiados ficavam sabendo das notícias e sobre os resultados da Segunda Guerra Mundial pelos protetores do Anexo, além de poderem ouvir ao rádio certas vezes. 

Em junho de 1944, a informação de que os Aliados irão desembarcar nas praias da Normandia, na França, os deixa esperançosos por uma rendição da Alemanha. Todos eles aguardam por esse resultado. Otto até pendura um mapa da Normandia em sua parede e marca, com tachinhas, a movimentação das forças aliadas.

Será que este ano, 1944, nos trará a vitória? Ainda não sabemos. Mas onde há vida, há esperança, e esta enche-nos de nova coragem e torna-nos novamente fortes. Vamos precisar de ser corajosos para suportar os muitos medos, dificuldades e sofrimento que ainda estão para vir”, escreveu Anne em seu diário.

Os nazistas batem à porta
Segundo a Fundação da Casa Anne Frank, aproximadamente 25 mil judeus se esconderam em abrigos secretos durante o período da Segunda Guerra Mundial. Deste montante, 8 mil foram descobertos – entre eles os Franks, os van Pels e o dentista Pfeffer. 

Pois em 4 de agosto de 1944, o Anexo Secreto é descoberto por investigadores do governo nazista, funcionários que vasculham o espaço e descobrem o esconderijo.

Os oito moradores são pegos desprevenidos, e, muito assustados, são escoltados para fora do Anexo, obrigados a adentrar em um caminhão e encaminhados para um centro de detenção.

Nessa correria, as páginas do diário de Anne ficam caídas ao chão e são deixadas para atrás. Quem as recolhe são as protetoras dos judeus, Miep Gies e Bep Voskuijl, as únicas que não são enviadas à prisão.

Uma vez interrogados pela polícia, os judeus são deportados para trabalhar no campo de Westerbork, onde trabalham arduamente partindo baterias, uma tarefa insalubre.

Eles não ficaram por ali por muito tempo, já que o campo de Westerbrok era mais uma área de passagem. Em 3 de setembro de 1944, os oito partiram em um comboio com destino ao campo de Auschwitz, na Polônia.

Oficiais alemães na plataforma do campo de transição de Westerbrok perto de um comboio que está prestes a partir (Foto: Anne Frank Org)

 

Auschwitz, separação e morte
Ao chegar ao campo de concentração, os homens e mulheres são separados e é essa a última vez que Otto vê sua esposa, Edith, e suas filhas, Margot e Anne.

Todos os prisioneiros ganham números tatuados em seus braços e têm suas cabeças raspadas. Recebem roupas de campo de concentração, pois não podem utilizar as suas próprias.

Otto, Hermann, Peter e o dentista, Pfeffer, conseguem ficar juntos, mas não pode muito tempo.

Hermann logo é tido como doente, ainda em 1944, e encaminhado à câmera de gás.
Em seguida, Pfeffer é deportado para o campo de concentração Neuengamme, na Alemanha, onde morre por escassez de alimento e execução de trabalho pesado.

Situação semelhante acontece com Peter, que é levado ao campo de Mautahausen, na Áustria, e morre de exaustão e cansaço em 1945.

Otto é o único dos homens que sobrevive. Em 27 de janeiro de 1945, os soldados russos chegaram à Auschwitz e libertaram mais de 7 mil prisioneiros, entre eles, o patriarca Frank.

As mulheres não tiveram nenhum pouco de sorte. Apesar de Edith, Margot e Anne conseguirem ficar juntas em Auschwitz (Auguste foi encaminhada para uma parte diferente do campo e depois transportada ao campo de Theresienstadt, em 1945, onde morre assassinada) em novembro de 1944, as duas filhas Frank são enviadas ao campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha.

Campo de concentração de Bergen-Belsen (Foto: Anne Frank Org)

 

Edith fica sozinha, adoece e morre no início de janeiro de 1945. Já Margot e Anne chegam ao novo destino e trabalham juntas, mas as condições ali são ainda piores. O frio é pesado, não há alimento e o tifo, doença bacteriana, está se alastrando entre as prisioneiras.

As duas ficam doentes e morrem apenas uma semana antes do campo ser libertado.

Fim da guerra e a descoberta do diário
Otto Frank foi o único dos oito prisioneiros que conseguiu sobreviver ao campo de concentração e à perseguição aos judeus do governo nazista.

Ao ser libertado de Auschwitz e com o fim da Segunda Guerra Mundial e consequente derrota de Hitler, Otto retornou à Amsterdã e tentou descobrir o paradeiro de suas filhas e esposa. Interrogou sobreviventes, conversou com seus antigos protetores e conheceu testemunhas que presenciaram as mortes de Anne e Margot.

Após a notícia, uma das antigas protetoras do Anexo Secreto, Miep, entrega à Otto as folhas que havia coletado do diário de Anne. Em setembro de 1945, ele começou a ler os relatos de sua filha e sentiu que havia muito dela que desconhecia até então.

“Comecei a ler lentamente, poucas páginas cada dia, mais teria sido impossível, uma vez que eu estava dominado por memórias dolorosas. Para mim foi uma revelação. Ali se revelou uma Anne completamente diferente da criança que eu perdi. Eu não tinha ideia da profundidade dos seus pensamentos e sentimentos”, relembra Otto.

Publicação das memórias de Anne
Nas páginas escritas pela menina, Otto percebeu o desejo da filha em tornar-se uma escritora e em publicar um livro após a guerra informando sobre o tempo que passou vivendo no Anexo Secreto. Grande parte do diário havia sido reescrito tal como uma edição do conteúdo original.

Após pensar um pouco, Otto decide realizar o desejo de Anne. Apesar de ter dificuldades de início em achar alguma editora interessada no conteúdo, após um artigo de um historiador holandês, Otto consegue conquistar a atenção de uma editora em Amsterdã e publicar o livro em junho de 1947, com algumas edições. Por exemplo, foram removidas páginas em que Anne discorria sobre sexualidade e tecia críticas à sua mãe.

Com o tempo, outras editoras vão se interessando pela história e publicam o diário em outros idiomas. Hoje, o livro está disponível em 70 idiomas.

Primeira edição do Diário de Anne Frank, publicada na Holanda, em 1947 (Foto: Anne Frank Org)

 

As páginas secretas
Durante mais de sete décadas, duas páginas do diário permaneceram como um mistério para pesquisadores, visto que eram relatos cobertos com papel pardo.

Após análises, os estudiosos concluiram que o conteúdo revela uma faceta de Anne amadurecida.

Em um dos trechos revelados, por exemplo, a garota explica o que aprendeu sobre menstruação: “é um sinal de que a mulher está pronta para ter relações com um homem, mas não se faz isso, é claro, antes de se casar”. Em outra parte, ela comenta sobre a prostituição, dizendo que homens têm relações com mulheres que abordam nas ruas e que “em Paris, eles têm grandes casas para isso”, escreve inocentemente.

Impacto mundial
Desde a primeira publicação até os dias atuais, os relatos de Anne Frank inspiraram gerações e até figuras públicas muito populares.

Em 1994, a política Hillary Clinton, dos EUA, comentou que o diário de Anne Frank tem o poder de “despertar-nos para a loucura da indiferença e do terrível pedágio que afeta os jovens”.

O líder político Nelson Mandela, da África do Sul, disse que leu a obra durante seus anos na prisão, enquanto empreendia esforços contra o apartheid, e traçou paralelo entre sua luta e a de Frank: “Porque essas crenças são patentemente falsas, e porque elas foram, e sempre serão, desafiadas pelos gostos de [Anne Frank]. Estarão condenadas ao fracasso”.

Em 1961, o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, discursou: “De todas as multidões que, ao longo da história, têm falado pela dignidade humana em tempos de grande sofrimento e perda, nenhuma voz é mais convincente do que a de Anne”.

Fundação Casa de Anne Frank
Hoje, a história de Anne Frank e sua família pode ser revisitada no museu Casa de Anne Frank, em Amsterdã. O edifício foi o mesmo em que os oito refugiados passaram dois anos e um mês escondidos dentro do Anexo Secreto.

Fundação Casa de Anne Frank (Foto: Wikicommus)

 

É possível fazer um tour virtual pelo espaço e, a partir de uma reconstituição, conhecer como foi o período no esconderijo.

Com informações de Anne Frank Fonds, Anne Frank.org e Anne Frank Guide.

*Com supervisão de Thiago Tanji

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